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Para cada escritor o seu leitor ou vice-versa

Quarta-feira, 11.08.10

 

Ora aqui está um tema que me fascina! Escritores e leitores, leitores e escritores. Primeiro, porque estão tão mal definidos... Depois, porque trazem tantos equívocos e preconceitos atrás...


Bem, vamos começar do princípio:

- li este post do John (João Campos), A polémica do calhamaço, no Delito de Opinião (parece que a polémica é blogosférica e o calhamaço um Bolaño, 2666);

- fixei aquelas frases sábias, "... Os gostos dos leitores são tão diversos que me parece bastante problemático catalogá-los de forma tão simples. ...; ... Uma vez mais, creio que cada um continua a ler o que quer, dentro das suas possibilidades. ...; ...incomoda-me também a contínua 'marginalização' (passe a expressão) de alguns géneros literários que no nosso pequeno mundo literário contam muito pouco - ou nada." (Aqui, o John refere-se à fantasia e à ficção científica);

- lembrei-me das magníficas análises literárias do John, no Jardim de Micróbios, e das suas sugestões de leituras, que registei aqui.

 

Como definiria "escritores" e "leitores"? Para já, não gosto do termo "escritor", escrever todos escrevemos. O que distingue quem simplesmente escreve, regista qualquer coisa num papel ou num écran, de alguém que comunica ideias, teorias, ficção, etc.? Percebem o que quero dizer? Por isso prefiro o termo autor, mesmo que não se trate só de ficção, pode ser um ensaio, um trabalho científico.

E "leitor"? O que simplesmente lê? Como se decifrar uma linguagem codificada fosse suficiente para definir uma relação com o texto!? É que nunca vi o leitor de livros como um receptor passivo de uma qualquer informação. Há uma interacção, a meu ver.

 

O post do John também me despertou para a polémica, não sobre o calhamaço (já o disse aqui ou noutro lugar que, em princípio e por princípio, não gosto de calhamaços, a não ser que me consigam resumi-los ou transformá-los em filme ou documentário. Assim, em 2ª mão, talvez...). De calhamaços, assim que me lembre, só li dois ou três. E agora ando com a História de Portugal do Rui Ramos atrás.

Voltando ao post do John, estou em sintonia com a sua opinião sobre essa relação imprevisível e inexplicável escritores-leitores. Só acho que pode haver, realmente uma influência do factor-publicidade, as pessoas não são completamente imunes a isso. Mas, no geral, creio que a escolha do livro é pessoal.

 

Desde miúda tive a sorte de o meu pai (leitor voraz, ainda hoje) nos contar partes de calhamaços: A Odisseia por exemplo, a cena do gigante tem sempre sucesso garantido na criançada... alguns episódios da Bíblia, o José e os seus doze irmãos, o menino no rio e na corte do Egipto... depois alguns excertos do Jorge Amado, o seu incrível sentido-de-humor, O Capitão de Longo Curso, o homem que sem perceber nada do mar salva, completamente por acaso, o seu barco de uma tempestade... e ainda houve a fase Latérguy, Os Pretorianos, Os Centuriões, a guerra da Indochina, o homem que conta ao companheiro de armas que a mulher tinha gasto todo o dinheiro da comissão para concertar o telhado do castelo também tinha sucesso... mais tarde  o Camus, esse estranho O Estrangeiro, que tanto me incomodou quando o li depois.

Antes de ler, ouvi muitas histórias, vi as cenas, ri-me com as personagens. Penso que a melhor iniciação de qualquer leitor é ouvir primeiro, ver primeiro. É que assim percebe-se melhor que a relação com um qualquer texto é uma relação viva, mutável, apaixonada por vezes, conflituosa por vezes, e sempre sempre pessoal.


Nas minhas primeiras leituras dirigi-me naturalmente para a acção, as aventuras, as personagens, o suspense, a adrenalina. Mas também lia poesia (aí por influência da minha mãe) porque gostava de a dizer, da música própria da poesia. Assim como alguns actos de peças de teatro,  adorava representar.

Só mais tarde me virei para a descrição e observação, a filosofia e reflexão, a crítica mordaz, dos meus autores preferidos. E actualmente, depois de tanta ficção, confesso, prefiro bons ensaios. E agradeço aos que transformam, como disse ali atrás, um bom calhamaço num filme ou documentário. Em 2ª mão, é melhor.

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 08:39

...

Quinta-feira, 09.07.09

 

 

Primeiro lemos os outros

Ouvimo-los

As suas vozes


Depois ensaiamos a nossa voz

e pensamos que é nossa essa voz

que começa a exprimir-se

 

Só muito mais tarde descobrimos

que ainda não é essa a nossa voz única

a que diz de nós

ainda não é a nossa voz

 

 

 

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 15:38

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Sexta-feira, 21.11.08

 

Somos uma síntese única

de tudo o que vemos, ouvimos e sentimos

dos lugares e das pessoas

 

Tudo o que dizemos e fazemos

é uma forma de devolver ao mundo

o que o mundo nos dá

 

É essa a magia da comunicação

afinidades e cumplicidades

 

A proximidade no plano mental

ainda que à distância no plano geográfico

 

 

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 18:44

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Terça-feira, 16.09.08

 

Habituamo-nos aos nossos autores, aos nossos compositores

aos nossos realizadores, aos nossos amigos

aos nossos hábitos

 

Andamos de certo modo condicionados a determinados padrões

e nem damos por isso

 

Convencemo-nos, por qualquer razão

que somos pessoas abertas e tolerantes

que olhamos realmente e vemos

que estamos atentos e ouvimos

mas só vemos e ouvimos

aquilo para que estamos previamente preparados

para ver e ouvir

 

De vez em quando há uns abanões nessa calmaria

mas não passa disso

Fala-se então de equilíbrio

que tudo volta ao equilíbrio desejável

como uma lei da Física

Nada me arrepia mais do que essa palavra

adaptada às pessoas

e à vida e aos relacionamentos

Precisamos de situações inesperadas

que nos acordem realmente

 

Para escapar à tentação de hoje pegar nos meus autores

mas lá acabarei por cair

peguei num livro, Escrever, de Marguerite Duras

que encontrei num Inverno de 94...




 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 17:10

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Sexta-feira, 25.07.08

 

Durante uns tempos parar de falar

Ouvir o silêncio

 

Ouvir outras vozes

Vozes dissonantes

 

Não sempre as mesmas repetidamente

mas vozes diferentes

 

Desmontar vozes

que sempre se ouviram com fascínio

 

Procurar por detrás

desmontar tudo

 

Ouvir de novo

desmontar outra vez





 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:14

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Terça-feira, 22.07.08

 

O homem prefere a ficção à realidade

Entre a ficção e a realidade, escolhe a ficção

 

A evolução humana, a história de uma construção de histórias

por cima da realidade

 

No meio desses construtores de histórias

aparece um ou outro demolidor de histórias

 

Retiram camadas e camadas de histórias

e fazem-no da forma mais inteligente possível

 

Amamos esses autores que construíram

a partir da realidade e não da ficção



 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 18:33








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